Foi na antiga estrada da Floresta, caminho que ligava o centro de Porto Alegre a algumas chácaras que ficavam ao norte do centro da cidade, que se instalou em 1911 a Cervejaria Bopp Irmãos. A Rua da Floresta, chamada de Cristóvão Colombo a partir de 1892, deu origem a uma importante artéria que se desenvolveu rapidamente depois de receber os trilhos da Cia. Carris Urbanos, na última década do século XIX. Também foi a Rua da Floresta que emprestou seu nome ao bairro que se desenvolveu ao longo da avenida.

O Bairro Floresta assim como seu vizinho, o Bairro Navegantes, nasceu com clara vocação comercial e fabril, o que muito se deveu ao empreendedorismo dos descendentes de colonos alemães que, vindos da região de São Leopoldo, fixaram-se naquela área da cidade, ali construindo suas moradias e seus estabelecimentos. Detentores de admirável habilidade artesanal, esses imigrantes acumularam capital explorando o conhecimento de diversos ofícios trazidos da sua terra natal. Produziam uma grande variedade de produtos, inicialmente com ferramentas rudimentares, para consumo próprio e para o mercado. Com o capital acumulado com esse comércio os teuto-brasileiros foram instalando naqueles bairros suas fabriquetas e suas empresas familiares. As pequenas fábricas desenvolveram-se rapidamente, dando origem a indústrias de tecelagem, fumo, metalurgia, beneficiamento de couro e de fabricação de cerveja, entre tantas outras. Muitas cresceram, deixando de lado seu caráter familiar, e empregando mão-de-obra assalariada, originando grandes indústrias que transformaram-se em importantes grupos empresariais.

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Mas não só os prédios industriais e comerciais configuravam o bairro no início do século XIX. Esses conviviam com as residências das famílias de classe média e alta, muitas delas ligadas às atividades desenvolvidas no bairro. Muitos funcionários das fábricas também foram construindo por ali as suas moradias. Naqueles tempos, antes da mobilidade conquistada com o advento do automóvel, a relação de proximidade entre o espaço de morar e o espaço de trabalhar ainda era indispensável. E a rua configurava um animado território de convívio social e familiar, com seus armazéns, residências, oficinas, farmácias, fábricas, cinemas e cafés. Embora esse convívio tenha se perdido com a segregação das funções dentro do espaço urbano, em algumas áreas do Bairro Floresta resiste ainda parte dessa diversidade.

Antes de instalar-se na Av. Cristóvão Colombo, a Cervejaria Bopp Irmãos, fundada em 1881, funcionava na Rua Voluntários da Pátria, o antigo Caminho Novo. Ali também já se estabeleciam muitas indústrias de propriedade de teuto-brasileiros, entre elas a Cervejaria de Heinrich Ritter, uma das primeiras famílias a fabricar cerveja no Rio Grande do Sul. No final do século XIX, outro estabelecimento cervejeiro já funcionava na antiga Rua da Floresta: era a Cervejaria Becker, de propriedade de Wilhelm Becker. Após sua morte, sua viúva casou-se com Bernhardt Sassen, que manteve a fábrica em funcionamento. Anos mais tarde, circunstâncias econômicas fariam com que os caminhos dessas famílias de empeendedores teuto-brasileiros se cruzassem, fundando o que viria a ser a Cervejaria Continental.

“Ao ser inaugurado em 27 de outubro de 1911, o prédio da Cervejaria Bopp foi considerado o maior edifício construído em cimento armado no país”.

A associação das inovações tecnológicas surgidas no século XIX à liberdade formal adotada na composição das fachadas, com sua torre, cúpulas, arcos, ornamentos e esculturas, evidencia o domínio que o arquiteto detinha sobre a linguagem da arquitetura eclética inspirada nos modelos europeus. Essa nova linguagem de caráter formalista e marcada pela diversidade de estilos e referências históricas, possibilitou uma liberdade formal descomprometida com os rígidos princípios das ordens e proporções da composição clássica, seguida pela arquitetura neoclássica do período Imperial. Essa arquitetura foi eleita pelo empresariado emergente, com seu desejo de ser moderno e de destacar-se socialmente, e configurou o perfil da cidade na virada do século XIX. No imaginário da época, aqueles edifícios eram a expressão da prosperidade econômica e da modernidade. Naquele ano de 1911, o prédio da Cervejaria Bopp passou a representar a influência do imigrante alemão no cenário urbano e econômico de Porto Alegre, expressa mais nitidamente nos Bairros Floresta e Navegantes. A composição de suas fachadas incluía rica estatuária de cunho mitológico, ornamentos e relevos que foram executados pelo escultor João Vicente Friederichs. Sua oficina, fundada em 1900, funcionava no Caminho Novo, em frente à estação da estrada de ferro, e sua equipe de artesãos atendia em grande escala a demanda dos arquitetos e construtores da época.

Em 1911, a Cervejaria Bopp Irmãos deixou as antigas instalações da Rua Voluntários da Pátria, inaugurando o imponente prédio da Av. Cristóvão Colombo. A construção, sob responsabilidade da empresa construtora de Rudolf Ahrons, foi iniciada em maio de 1910. O projeto arquitetônico é de autoria do arquiteto alemão Theo Wiederspahn, que desde 1908 dirigia os projetos da empresa de Ahrons. Theodor Alexander Josef Wiederspahn nasceu em Wiesbaden, na Alemanha, em 12 de fevereiro de 1878. Estudou em Idstein, e depois de formado trabalhou na empresa de sua família, em sua terra natal, construindo residências e palacetes na periferia de Wiesbaden, alguns dos quais são hoje patrimônio tombado. Veio para o Rio Grande do Sul em 1908, onde pretendia empregar-se na construção da Viação Férrea, no trecho que ligaria Montenegro a Caxias do Sul. O contrato com a Viação Férrea não foi assinado, terminando por ser contratado pela empresa de Ahrons, onde permaneceu até 1915, quando abriu firma própria. Foi dos mais atuantes arquitetos alemães da primeira metade do século XX. Entre as muitas obras de sua autoria – segundo o arquiteto e pesquisador Günter Weimer, somam em torno de 500 prédios no Brasil – destacam-se a Delegacia Fiscal (MARGS, atualmente), os Correios e Telégrafos, o Hotel Majestic, o Banco Nacional do Comércio (atual Santander Cultural), o Cinema Guarany (atual Banco Safra), além de vários prédios comerciais e industriais, como a Cervejaria Bopp, o edifício de Nicolau Ely (Tumelero, atualmente), a Bier & Ulmann e o Moinho Chaves, onde hoje funciona a loja da Ferramentas Gerais.

Nos anos seguintes, à medida que a Cervejaria Bopp prosperava, outros prédios projetados por Wiederspahn foram acrescentados ao conjunto. No decorrer desse período, muitas cervejarias gaúchas foram desaparecendo do mercado. Persistiam as cervejarias das famílias Bop, Becker e Ritter, que possuíam equipamentos e recursos técnicos mais modernos, além de amplas instalações frigoríficas. Essa superioridade técnica garantia produtos de alta qualidade, conquistando a preferência do público consumidor. Mas apesar da liderança no mercado gaúcho, os efeitos da crise do pós-guerra e os sucessivos aumentos de impostos se fizeram sentir nos negócios daqueles empreendedores. Em julho de 1924, os sucessores de Karl Bopp e de Heinrich Ritter decidiram fundir suas empresas, a Cervejaria Bopp Irmãos e a Cervejaria Bernhardt Sassen & Filhos, sob a razão social de Bopp, Sassen, Ritter & Cia. Ltda.

Essa nova empresa ficou conhecida comercialmente como Cervejaria Continental, e instalou-se no mesmo prédio da Cristóvão Colombo, onde funcionava a Cervejaria Bopp Irmãos, desde 1911. Várias obras de melhorias foram feitas para acompanhar a produção e, em 1928, um novo prédio foi projetado e construído por Theo Wiederspahn, compondo com o conjunto já existente. À medida que crescia, a Cervejaria Continental diversificava seus produtos, disponibilizando vários tipos de cervejas, além da gasosa, refrigerantes, água de soda e água tônica. Na década de 1930, a Cervejaria Continental investiu em uma iniciativa pioneira no Brasil: o cultivo intensivo da cevada cervejeira. O objetivo era libertar-se da dependência do malte estrangeiro e fornecer o produto para o resto do país. A cevada era importada já maltada, o que elevava os custos da produção. Para tornar o empreendimento mais atraente para os agricultores, que se caracterizavam pelo conservadorismo, a cervejaria distribuiu gratuitamente as sementes a partir de 1932. No ato da entrega das sementes ficava acordado entre a cervejaria e o plantador que a produção resultante do cultivo das sementes seria adquirida integralmente pela empresa, a preços convencionados no mesmo acordo.